“[...] O céu dividia-se entre o cinzento amedrontado e o terrível vermelho, o vermelho da tormenta. E nada era tão vermelho quanto aquelas nuvens e o céu de vermelhidão perpétua. O ar era vermelho e a terra era vermelha, toda a existência em uma área de tormenta parecia impregnada da substância que formava aquelas nuvens de sangue. Na tormenta chovia, mas aquela chuva não trazia frescor, ela ardia como chama, o próprio ar era hostil e venenoso, havia lugares em que a realidade havia sido alterada, havia enfraquecido. As tempestades de relâmpagos eram constantes, a substância, a coisa vermelha que compunha tudo que era tormenta, transformava os destroços em algo parecido com insetos, o chão era ameaçador, era como se os prédios, solo e montanhas de antes estivessem vivos e quisessem nos devorar [...]”.
A tormenta já havia atacado antes, os primeiros relatos falavam de mortes aleatórias, de pessoas morrendo pela chuva e relâmpagos. Por onde passou, ela destruiu tudo aquilo que chamávamos de vivo e belo, aqueles que tentavam descrever uma área de tormenta falam de um pesadelo tentando ocupar o lugar da realidade – ou pior, um pesadelo se tornando realidade.
Heróis sempre foram capazes de enfrentar ameaças, derrotar monstros, vilões e corrigir injustiças, mas nada, nada puderam fazer contra a tormenta. A tormenta é vasta de mais, é forte demais. É um oponente acima de qualquer desafio já enfrentado. Depois de anos após a sua primeira aparição, tudo que os aventureiros mais hábeis puderam fazer foi explorar as suas periferias, abater alguns monstros mais fracos, e adquirir conhecimento sobre os invasores.
A Tormenta era terrível, não porque destruía, mas porque corroía a mente e o coração daqueles que a presenciaram. Os sobreviventes de uma região que a tormenta engolia se tornavam farrapos do que algum dia já foram – nobres, plebeus, vilões e até heróis eram reduzidos a nada mais que loucos, mas talvez a loucura seja um mecanismo de defesa dos nossos cérebros para nos proteger do horror que havíamos presenciado e sobrevivido, e que ainda estava fresco na mente. A tormenta é um desafio que nem os mais poderosos heróis ousaram enfrentar, esses são os lugares mais perigosos, mais aterrorizantes e os vilões mais poderosos. Tragédia é sempre o resultado mais provável de qualquer investida contra a tormenta. Por isso ela permaneceu intocada por vários anos. As perguntas que ficam: Será possível derrotar a tormenta? Será possível vencer o invencível? Seria insano lutar uma batalha que não há chance de vitória? Seria heroico? Então, qual o verdadeiro significado do heroísmo?

Arte Original de Capa: Randis